15 Fevereiro 2012

Belém


Depois de ancorar o expediente, os pescadores encostam na preguiça, sem muito assunto, flutuando sobre as suas madeiras, marolhando o horizonte. É fim de feira, troca de turno. Como de costume, a fedentina atrai uma nova leva de trabalhadores ao cais. O casario histórico serve de poleiro ao bando, que vem limpar os restos do dia: na orla de Belém, uma brisa vigorosa despenteia os urubus.

Agora que é tarde, fresco mesmo só o tamuatá, peixe cascudo amontoado em cardume morto, sobre um caixote no chão, pra ver se alguém ainda leva. É meio antipático desse jeito assim, mas a carne é boa, os pessoal gosta; vai querer? Surubim, não. Filhote, também: só amanhã de novo. Venha cedo.

No dia seguinte, bem aconselhado, bato passos pelo centro comercial enquanto os vendedores batem palmas à frente dos magazines, tentando acordar os transeuntes para as imperdíveis ofertas, a essa hora tão matinal que o coco ainda nem deu tempo de gelar, meu patrão.

Ah, se fosse possível me levantar ainda mais cedo... pelo menos uns 140 anos mais cedo. Certamente, eu seria cortejado por atendentes muito mais elegantes do que estas moças de camiseta polo azul, alinhadas em pelotão uniformizado à frente da Tecidolândia. Além disso, se fosse mesmo aquele tempo antecedente, eu não chegaria de chinelo de dedo como agora, imaginem! Noutro século, meus cavalos esfriariam os cascos à porta, e eu desceria da carruagem fazendo questão de demorar, para ser melhor visto na rua. Dentro do salão neoclássico da Paris N'America, "a primeira firma constituída em Belém", eu discutiria política com outros acartolados, aos pés da sinuosa escadaria de mármore nos fundos da loja, enquanto aguardasse o embrulho das peças de tafetá bordado que eu encomendara para cobrir bem a minha dama, com todas as pompas da Belle Époque. Pacote no sovaco, seguindo adiante pela Rua do Comércio, no balcão da Livraria Licinha, a nata da intelectualidade paraense se acotovelaria para me ouvir arrotar opiniões interessantíssimas sobre "as últimas novidades literárias". Quem sabe?

- Bota a mochila no peito que aqui tá cheio de ladrão, turista!

Ao grito do vendedor de óculos, arregalo os olhos. Minha fantasia imediatamente retorna do fin du siècle. Estou na XV de novembro, novamente, desviando dos camelôs, a caminho do mercado. Ladeado por tantas fachadas estrangeiras, à sombra de solares, ontem e hoje se embaralham de tal forma que não tem jeito: pelos passeios antigos de Belém, aqui e ali, a gente acaba tropeçando em divagações sobre o passado.

Recolho meus pensamentos dispersos e tomo rumo, na contramão da nostalgia, me afastando do auge da borracha. Basta um quarteirão, no entanto, e já estou perdido novamente, em meio a irresistíveis devaneios. Dessa vez, encosto num poste... O Marituba tá lotado. Aquele, passa em Mundurucus. Icoaraci desviou do ponto, motorista sem educação! Tucunduba foi assaltado, outra vez. O melhor é descer em Taparrá e pegar o Apinagés. Olha lá, o Mauriti já vem aí... Parado na calçada, brinco de anotar os nomes indígenas dos coletivos municipais que circulam, em flagrante paradoxo: nas suas tabuletas de destino, os ônibus de Belém indicam as nossas origens.

É quando o semáforo amadurece. Guardo o meu caderno de anotações no bolso. Atravesso a avenida. Adentro o Ver-o-Peso. E toda a confusão se personifica, origens e destinos, passado, presente e futuro, tudo irremediavelmente misturado na figura da cabocla que me aborda, prometendo destrancar o meu caminho:

- Pense no que você quer pra 2012 que esse banho vai te trazer, meu jovem.

Numa das bancas da renomada farmácia amazônica, representando a quarta geração da família à frente do negócio, Cecília me oferece uma de suas garrafas mágicas. Segundo o rótulo, de catinga de mulata a trevo da sorte, são 17 ervas combinadas na receita. Isso tudo, claro, descontando os segredos.

Acabo levando o vidro, para me enxaguar de bendizências amanhã, na noite de revéillon. O "defumador atraente", incenso graúdo de queimar ziquizira nos negócios, também vem junto na sacola, zerando o troco. "Eu vendo saúde", anuncia o letreiro pintado à mão que emoldura o box 28, todo penduricado de panacéias coloridas:

- Esse "viagra natural" deixa o homem inconsolável, quente que não esfria. Melhor levar junto um frasco de "segura marido", freguesa. Que é pra não desperdiçar o investimento.

Foi de ver e ouvir suas velhas, sem lousa nem livro, desfolheando apenas a natureza, que estas mulheres herdaram o dom de curar com as plantas. Charlatãs na concorrência, como sempre em tudo, quem vai negar? Mas que tomem litros de "chama dinheiro", mesmo assim, não terão prosperidade: para ser mandingueira respeitada no Ver-o-Peso, há que ter ciências profundas e anteriores. Na profissão de Cecília, dá-se assim: todo mal se corta é por sabedoria das raízes.

Noutro corredor do mercado, o lixeiro estica no rosto um sorriso ainda mais ofuscante que seu uniforme laranja. Raimunda, "especialista em peixe frito", acelera o ventilador para espantar as moscas e esse mormaço, pior que óleo fervendo. O vendedor de bacuri abana o carvão embaixo do almoço: o caranguejo boiando na panela. Afiado como dente de coati, o facão na mão da moça rói a casca da castanha. Essa malagueta afasta até a sogra, meu freguês. O lixeiro dá outra risada:

- Daqui, eu não quero sair. Agradeço a Deus por estar nessa terra rica. E com pessoas cabível.

Vagando a esmo pelo Ver-o-Peso, peregrino feito a Virgem de Nazaré: por onde passo, vou dando corda pro povo. Assim estico a romaria, sem pressa, até a porta da casa da Santa. Digito um crucifixo no peito, por respeito. E contorno a torre do sino. "Há uma rosa fria nos teus lábios", recita o muro, maquiado com letras vermelhas. Na região da catedral, pintadas para ruborizar a paróquia, enquanto aguardam o próximo cliente, as putas lixam as unhas com escama de pirarucu.

Procurando a parada derradeira na minha procissão de turista, sigo as borboletas. Ao chegar num quintal protegido pela Marinha, bato continência para o recruta que guarda a portaria do viveiro que abriga 700 lagartas aladas. Dentro do casulo geodésico, encapado com uma tela finamente trançada (para evitar a revoada das cores), deito num banco de madeira e aprecio o idílio. Lá fora, os flamingos ciscam, observados por um solitário tuiuiú. Em constraste com o bando fúnebre no começo do passeio, venho terminar a viagem no mangal das aves brancas: suspeito que entre as garças e os urubus, mais ou menos, é onde Belém acontece.


25 Janeiro 2012

60 anos

Meu pai completou 60 anos. E eu achei que uma idade assim, tão redonda, era uma boa desculpa para xeretar o passado. Então fui até Minas Gerais. Em Visconde do Rio Branco, onde ficava a casa dos meus avós, entupi a minha câmera com memórias dos meus tios e primos. Depois voltei para São Paulo, assisti tudo de novo, picotei umas partes, colei numa sequência e deu nisso: um filme que eu me presenteei de fazer. Um filme que acabou virando uma homenagem, uma lembrança de aniversário, mas que eu fiz mesmo em causa própria: é que quanto mais eu conheço, mais eu fico admiroso da história de vida do meu pai.

21 Dezembro 2011

Garimpo

Não escrevo como hemorragia, por transbordamentos. Não funciono assim. Também nunca experimentei as palavras fazendo fila para vazar em enxurrada pela minha caneta. Nunca. Não sofro assédios da inspiração. O contrário é que acontece: as palavras me evitam. Eu diria até que se escondem. E se escondem muito bem, por sinal, geralmente em lugares fundos, de difícil acesso. Só me resta ir até lá encontrar as palavras: tudo quanto escrevo sai de mim por escavação.

01 Dezembro 2011

Jornal da Record News

O jornalista Heródoto Barbeiro, reconhecido "kombófilo", divulga o livro ENCARAMUJADO no Jornal da Record News. Veja só!

19 Outubro 2011

Pé-de-céu

foto: Rudimar Narciso Cipriani

Sobre a metrópole,
nem tudo quem voa
tem turbina no sovaco

Assim era um par de asas
fazendo folias na fuligem

O cinza ria
que até corava mais pra azul

(A profissão daquele passarinho
era esnobar gaiolas)

Tanto vai-e-vem
fez inveja num imóvel

Poleiro de gentes,
o condomínio pontiagudo
se arquitetou como vingança...

Por sua rota rotineira,
os pinotes do passarinho
tiravam o ar do vento

Foi quando o céu empedrou:
num sopetão de arapuca,
onde eu moro deu uma janelada
bem na testa do passarinho

(Certas transparências
são impróprias a voar)

Encontrei-o tarde, já rijo e frio:
minha janela envidreceu o passarinho

À duras penas, o esnobador de gaiolas
aprendeu a nunca mais decolar

Seu epitáfio quem dirá é o chão:

Onde eu plantei o passarinho
vai crescer um pé-de-céu
pra gente chupar liberdades.