30 Julho 2007

Santo Daime

Com os olhos espremidos e a testa franzida pela miopia, vejo ao longe que meu ônibus finalmente se aproxima. Estico o braço. O motorista encosta. E embarco no Irineu Serra com destino ao Alto Santo. Foi lá que um jovem negro, nascido no interior do Maranhão, fundou o Santo Daime. Ganhou discípulos. E uma homenagem circulante: hoje, uma das linhas regulares do transporte coletivo de Rio Branco leva seu nome.

O Mestre Irineu, como ficou conhecido, chegou ao Acre em 1912. Na floresta, conheceu a ayahuasca, o “vinho dos espíritos”, bebida feita da mistura de um cipó (jagube) com as folhas de um arbusto (chacrona), amplamente utilizada pelos índios do sudoeste da Amazônia em rituais sagrados.

O Daime cristianizou a prática. O Santo Graal se encheu de um líquido verde e amargo.

Cheguei à igreja pioneira, atualmente sob a responsabilidade da viúva de seu fundador, a Madrinha Peregrina, num sábado, 23 de junho. Na noite para São João, eu teria mais um contato com a ayahuasca: o primeiro foi em Sampa, na União do Vegetal, uma outra corrente religiosa que faz uso ritual do chá. O segundo contato foi em Goiás, na Chapada dos Veadeiros, numa cerimônia pagã. Em ambos os casos, não senti muito mais do que um mal-estar físico. Nessa terceira tentativa, esperava finalmente viver a experiência mística que de tantos eu já ouvira testemunho.

“Ave Maria, cheia de graça...”. Num canto da sala, os homens em terno impecavelmente branco, com a garganta amarrada por uma gravata preta. No outro canto, as mulheres, também em vestes alvas: camisa e saia plissada. Da lateral do fardamento pendem compridos fios coloridos. Na cabeça, uma coroa. Todos rezam juntos o terço. Depois, engolem o néctar consagrado.

Assisto sentado ao bailado sincrônico dos daimistas (aos neófitos, como eu, não é permitido dançar). São três pra lá e três pra cá. E a cada passo, uma sacudida no maracá, instrumento indígena que foi incorporado à liturgia sincrética.

Os cento e tantos hinos, entoados vibrantemente das seis da tarde às três da madrugada, louvam a Virgem Maria com rimas pobres e erros de concordância: sinto a presença serena do Mestre Irineu ao cantar seu latim de iletrado.

Mas não me dou por satisfeito com a leve embriaguez que me acomete. Queria visões. Entro na fila para o segundo copo. E nada. Num vidro espelhado, reparo nas minhas enormes pupilas dilatadas. Meus sentidos estão aguçados. Mas ainda não é isso. Terceira dose. Um suor frio me encharca. E então eu, que queria tanto elevar meu espírito aos céus, tenho que levar meu corpo ao banheiro. Por onde entrou, o Daime saiu.

Restabelecido, aproveitei o intervalo que divide a cerimônia ao meio para admirar o sofisticado arranjo das bandeirolas que foram penduradas no teto do salão como parte da decoração junina. Os pedaços de papel azuis e brancos foram dispostos de maneira a compor o miolo redondo da bandeira do Brasil. Cheguei a culpar esse nacionalismo pela minha peia: como é que eu vou transcender com um enorme “ordem e progresso” escrito sobre a minha cabeça? Implicância passageira: fui pra fora e me juntei às crianças que jogavam pedras na fogueira de quatro metros que foi montada na área externa da igreja.

Rojões espocavam de vários pontos do Alto Santo: há vários outros centros do Daime no bairro. A doutrina fundada pelo Mestre Irineu ramificou-se em inúmeras dissidências. Uma delas, a Barquinha, eu viria a conhecer no dia 4 de julho.

Me convidaram e eu fui. Simples como não é com a Dona Peregrina: para participar de um trabalho conduzido pela Madrinha, muita gente chega a esperar meses, até que ela se convença da aptidão do pretendente. Entrei de cara porque dei sorte de conhecer a Keyla, fardada de prestígio, que intercedeu por mim. Uma igreja se fecha para resguardar a tradição. A outra, mais recente, se abre para aumentar sua fileira de adeptos.

As diferenças não param por aí: na Barquinha, não há bailado nem maracás. Todos sentados: homens e mulheres, em trajes brancos, quepe e ombreiras franjadas, como marinheiros. Dessa vez, para evitar enjôo em alto-mar, parei no primeiro copo.

Tentei manter a atenção nos cânticos, mas não conseguia deixar de pensar nas Cruzadas toda vez que as canções se referiam aos “guerreiros de Jesus” e ao “exército da Luz”. Acabei divagando nos insetos que voavam em volta da lâmpada acesa sobre mim. Como eles, me sentia entorpecido por uma luz fria. Mais uma vez, não tive mirações.

Mas uma lição se revelou a mim, num dos hinos do Mestre Irineu:

Perguntei a todo mundo
Por onde vai o caminho
Ninguém me respondeu
Vou viajando sozinho

Respeito o Santo Daime, mas como uma fé alheia. Sou o fundador da minha própria religião: síntese pessoal incompleta. Seita de um só. Minha espiritualidade passa pelas doutrinas, mas não pára nelas. Sigo na busca.

6 comentários:

Anônimo disse...

Anthony!
Ha muito tempo que nao aparecia por aqui e nem imaginava onde voce ja estava. Uma delicia ler os seus textos, mas gostei principalmente daquele sobre sua irmã. É mesmo isso. Irmão é isso. As vezes um tempão sem se falar, mas sempre que precisamos, eles estão ali, do nosso lado, mesmo que longe. LINDO!
Beijos
Rê Schermann

Tia Celma disse...

Junior ,
tenho acompanhado as suas aventuras , não tenho deixado comenários ....mas estamos sempre aqui torcendo pra que vc continue o seu caminho com a proteção de Deus !!!
beijos da familia
Enzo , Carol , Domi e eu !

Anônimo disse...

tava com saudades de ler suas histórias. Continuo rezando (sem Santo Daime) para uma boa viagem!
bjs
Claudia França

Anônimo disse...

E aí Antônio, sou eu o Victor. Continuo visceralmente envolvido com as suas novas investidas viajantes.
Essa moçada do Daime aí é a maior comédia. Uma vez, estávamos eu, a Carla e a Maricota numa comunidade isolada lá em Aiuruoca na Mantiqueira, quando começou uma sessão do bailado. Sem tomar nada(tenho o maior cagaço de despirocar forever com essas coisas...) fui me meter no meio da mandala humana. Bom, primeira gafe: não percebi que era uma mandala sexualmente bipolarizada. Fui direto no meio da mulherada, ao lado da Carla. Imediatamente levei a maior bronca dum gringo cucaracha, que em seguida me conduziu ao clube do bolinhas embriagados de chá. Aí, pra piorar minha situação, carregando a Mary no colo(na época ela não passava dos seis meses de idade), fechei os olhos e comecei a viajar fundo no mantra dos únicos cristãos malucões que até hoje conheci. Resumindo, enquanto toda turma dava dois passos pra direita, eu já tava dando uns três quatro pra esquerda. Novamente o gringo colou na minha orelha e falou com cara de "superego":
- Estás bailando para el lado errado..
Enfim, depois dessa indireta, cheguei à conclusão de que realmente minha presença não se harmonizava com a daqueles velhos de barbas compridas e brancas, e de suas discípulas macrobióticas de roupas largas e coloridas.
No mais, desejo-lhe que continue firme na senda. Já fizestes um livro. E dos bons, hein? Aliás, dos ótimos. Inclusive, no meu modesto bedelho, faz jus que saia do formato digital. Há pouco tempo fui atrás disso, duma auto-publicação, foi meio duro a coisa da grana e da exposição, mas valeu. No frigir dos ovos eu mais gostei do que desgostei de escancarar as minhas paranóias do segundo semestre do ano passado. Acho que devia fazer o mesmo. Sabe como é, embora um livro não tenha espaço para fotos nem vídeos, a mística da página virada é insubstituível.
É isso aí.
Grande abraço.
E até a próxima estação.

Antonio Lino disse...

pois é, rê! pra irmãos não tem além-mar. e pra amigos tb não. manda notícias da terrinha!

Celma e Claudinha, obrigado pela fé que me protege! carinho pra família toda.

vitão! cara, dei muita risada com seu relato. de fato, tem muito maluco por aí usando o chá como muleta. mas acho que o daime é muito maior que isso. definitivamente não é minha onda. mas, pra muitos, é uma fé do bem. Claro, às vezes penso no livro. Mas tento não pensar. Por enquanto, quero me dedicar a viver intensamente essa experiência. O livro é consequencia, vem depois. A viagem é agora.
E essa história do teu livro? Não sabia! Já tá nas melhores casas do ramo?

beijos!

Mayara disse...

Em relação ao Daime Antonio
é o seguinte

" O daime esta para todos,mais nem
todos estão para o daime"
esse não é o caminho para voce
sugiro que procure algo que supere
todas as suas espectativas,pois o daime não é brincadeira não é um patrimonio histórico brasileiro tombado pelo Gilberto Gil Ministro da cultura,por tanto pense bem antes de relatar algo sobre a Doutrina.