
Para Guilherme Condé e João Prado, parceiros na aventura
Rugas na pele do planeta. Sinais da geológica idade. Ao sopé da pedra gorda de centenas de milhares de milênios, admiro-me fugaz.
Para não me abreviar ainda mais, confiro o nó amarrado à minha cintura: a vida do escalador, como era no princípio, está visceralmente ligada a um cordão.
Tateando detalhes no dorso do cartão-postal, vou descobrindo uma árdua escadaria. Subo vagarosamente, deixando lá embaixo o magneto duro ao qual estou imantado.
No contato com a rocha, absorvo-a. Não demora e meus músculos, irrigados de granito, enrijecem. Chacoalho braços e pernas para jogar fora os tremores. E insisto. As falanges, todavia, cedem...
Estico os joelhos para escapar ao ralador. Tudo passa rápido à minha frente, em ascensão frenética. Meu peso agora está em outras mãos.
Um tranco me salva do baque. Respiro aliviado. Polvilho magnésio nas ventosas. E grudo novamente. Os próximos três metros eu já conheço.
Dentro das apertadas aderências que me calçam, uma pedicure sádica pinta de sangue o avesso das minhas unhas. Vez ou outra, tenho que ancorar para tomar um pouco de paisagem: é meu analgésico.
Embriagado de exaustão, acumulo altura. Sou um corpo débil a reboque da teimosia. Até que, finalmente, piso sobre o derradeiro entre os 396 degraus. Durante uma terça parte do dia, icei minhas toneladas até aqui. Agora, descerei pela via expressa.
Arrasto-me até o ilustre veículo. Consumido. Manquitolante. E encantado com a descoberta que acabo de fazer: dentro de mim, guardo um guindaste.
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1 comentários:
Ei amigo,
resposta pra você aqui.
Abraços,
Mateus
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