14 Novembro 2010

São Paulo, 40°

O sol bem disposto acordou bocejando um verão na cara da alvorada. Aquele bafo morno da manhã atiçou-se a vapor de sauna. No pico da fornalha, o meio-dia gratinava o mundo.

Por estas desidratantes horas, deu-se uma disfunção no meu termostato. Raiava um inclemente braseiro nos trópicos. Mas meu clima fechou-se numa avassaladora tormenta glacial. De repente, sofri um freezer.

Vigorosos calafrios me chacoalharam descontroles de britadeira. Meus dentes bateram uma frenética e inútil mastigação. Icebergs pisotearam meu corpo. Derretendo de ardores, suei neve.

Imprevisível aos meteorologistas, o choque térmico procedeu de um curto circuito interno. Meus celsius estavam mais quentes que lá fora: em gradação de fervura, após 10 meses na África, retornei a São Paulo pela portaria de um hospital.

Uma cefaléia contundente me impede o desatualizado revisteiro. Para afogar o tédio, assisto às marés da sala de espera. Até que sou fisgado por um baiano.

Puxando assuntos de dentro de uma sacola plástica, o eloquente medicado traz à tona sua farmácia. E lista os efeitos colaterais:

- Esse tarja preta me dá pesadelos com caixão.

Muletando um moribundo, a senhorinha impávida pragmatiza providências. Depois de rubricar um aval à internação, a descomovida volta com uma amostra do bebedouro ao agonizante que tosse. O asfixiado rapaz queimou os pulmões e o modesto patrimônio da família num cachimbo de crack. Exausta de levantar suas recaídas, a acompanhante desabafa ao meu confessionário uma fatídica resignação:

- É meu filho, mas prefiro que morra.

Envolta num sanitário geriátrico, outra mãe se traz sentada. Cadeirando a si mesma, Roberta deixou a prole em casa, a quatro ônibus daqui. Obstinada, a suburbana tem de robusto apenas o temperamento: seus ossos estão quase sozinhos de organismo.

Foi um marido indigesto que definhou em Roberta a fome de se cuidar. Nos últimos seis meses, o jejum de comprimidos comeu-lhe vorazmente as substâncias. Hoje, a recém-divorciada se reconcilia com o tratamento.

Diante do meu testemunho, a solteira juramente se recompor dos enchimentos: pelo menos vinte quilos, para melhor almofadar um novo pretendente. Às suas quatro moças, todas em idade de imitar seus despudores, Roberta aconselha a responsabilidade que não teve. Na defesa ao amor com seus devidos invólucros, sua imagem ilustra um argumento incontestável:

- A doença taí.

Enquanto aguardo dos infectologistas um pronto-socorro, a clientela do Emílio Ribas me conta-goteja histórias reais. A especialidade dos meus interlocutores é resistir a açoites de vírus no seu próprio bem-estar. Aplicada à minha escuta atenta, essas experiências alheias reduzem consideravelmente meus níveis de estereótipos. Pelo contato humano, me descontamino de algumas ignorâncias sobre a AIDS.

Ao fundo, com uma obediência astronômica à escala dos horários, a lua inicia seu noturno sobre São Paulo. Pela minha vez, um apito desescurece no painel eletrônico. Tendo alcançado a dianteira na fila digital, levanto para trocar meus amassados algarismos por um acesso ao consultório.

Entre as preliminares diagnósticas, me aplicam uma ficha cadastral. Soronegativo a primeira questão. E desço desconfirmando à caneta as demais enfermidades elencadas no sulfite.

Gabaritado o preenchimento, me insatisfaço ante as lacunas do formulário. Não se descreve a biologia de uma pessoa com um alfabeto reduzido a xis. Então, lavro um adendo ao meu prontuário clínico, tangenciando as linhas reservadas a “informações complementares” com uma caprichada caligrafia. À ciência médica, dedico maiores relevâncias sobre mim:

“Tenho baixa imunidade a paradeiros. Quando exposto a estadias duradouras, manifesto propulsões. Sou um andejo crônico: padeço de viagens.

Ao despertar, entro em estado terminal: meu leito derradeiro fica à beira de um princípio. Todo dia nasço com expectativas de vida. Minha desordem é generativa.

Para desimpedir obstruções nas vias respiratórias (sou alérgico a paredes), pratico inalações de ar livre. De tanto se expor a novidades, meu cotidiano anda bem corado. Ao menor indício de inflamação das rotinas, pingo horizonte nos olhos. Não perco de vista as imensidões.

Pelo hábito de desmedir os impulsos e deixar o coração bater em retirada, meu melhor sistema ficou sendo o circulatório. Se me incomoda o dolorido de cadeira em demasia, aplico emplasto de mochila nas costas. Em caso de apatia grave, o procedimento deve ser imediato: favor me encaminhar para lonjuras bonitas numa perambulância”.

Duas horas depois, sem nenhum firula poética, a carta-resposta remetida pelo laboratório declara: estou com malária.

As ocorrências anteriores eu pegara e deixara na Libéria. Mas nesta terceira investida, contagiados pela vontade de além-mar que certamente beberam no meu sangue, os plasmódios africanos quiseram viajar também.

Cumpriram todo o trajeto com a tentação reprimida. Tão logo desembarcaram no Brasil, entretanto, se extravasaram em bloco: nas ruas de mim, os microscópicos gringos festejaram seu carnaval.

Cápsulas de quarta-feira de cinzas arrefecem a folia dos meus penetras. Do lado de fora, pelo contrário, as temperaturas continuam brincando de efervescência.

Num rodapé da febril cidade, valorizo as calçadas higiênicas: para o asseio do passeio, pacotes de lixeira afivelam-se à cintura das pilastras de iluminar. As tomadas e interruptores trabalham numa diuturna animação de voltagem. O rebanho de veículos obedece aos sinais de pastores trifásicos. Os pedestres atravessam minha presença sem me notar... com Monróvia ainda fresca nos óculos, relativejo São Paulo.

Na vertical, os superlativos atingem patamares de torcicolo. Os tijolos empilhados cutucam as nuvens. A luz desce com dificuldade ao solo da densa floresta imobiliária: no teto urbano, as clarabóias são estreitas.

Mas não obscureço sob as sombras da metrópole. Já contraí estes cimentos. E aprendi o antídoto: ao sentir muros, alimento minhas rachaduras até engordar janelas. Mantenho o espírito bem arejado de paisagens.

Para prevenir enrijecimentos precoces, gosto de empinar rochas com as crianças. Por exercitar levezas, perdi toneladas de monumento. Minha cabeça dura é oca de idéias fixas.

Tais desqualificações comprometeram minha carreira de estátua. Gente petrificada é latrina de passarinho. Eu não: só voltei ao poleiro para outro fôlego ao céu.

4 comentários:

Tatiana Setuguti disse...

Sempre escrevendo lindamente! Gosto de passar por aqui sempre que posso para acompanhar suas aventuras.
Boa sorte e cuida direitinho da sua saúde!

Beijos,
Tati Setuguti

bianca disse...

encontrei seu blogue quando pesquisava sobre o saco do mamanguá-coisa boa ler você. vou voltar pra te ler vez e outra.

Mateus disse...

Malária?! De novo?!
Putz... melhoras aí, viajante!

Abraços do amigo agora-quieto-em-dissertação,
Mateus

Antonio Lino disse...

miguinhos,
valeu pela visita. e pelos votos de saúde. já tô tinindo de novo!
beijos,
lino