Devolvi-me da África e, durante quatro meses, fiquei ciscando saudades em São Paulo. Nesse período, considero que livrei-me bem de ser abocanhado por gaiolas. Com tal oleosidade, recaí de uma urticária crônica nas asas. Coçando-me ao irresistível, não tardou: aconteci outro voo.
Desta vez, minha intuição ventava ares de montanha. Em conversas de sentido, tive assunto com a Serra da Mantiqueira. Planando sobre acasos, me atrevi à breve distância. Logo, um ninho com os aconchegos da minha idéia quis que eu pousasse em São Francisco Xavier.
Nem três horas de rodagem e a megalópole entrega a paisagem a uma idílica mansidão. Ao redor do coreto, toda penteada de caprichados jardins, a imperturbável praça está sempre de domingo. Dos compadres, a prosa queima palha. Da cidade, a fumaça se apagou.
Melhor ainda ao interior do bucólico, reboliço a poeira de uma vicinal por sete agradáveis quilômetros. Margeando um cristalino gelado, o caminho escorre imitando as sinuosidades da natureza. Daí piso o fôlego do motor colina acima. E depois de destrancar as três madeiras que restringem as leiteiras do Seu João ao devido capim, finalmente culmino no encantamento do meu mais recente domicílio.
Com a satisfação de quem vencesse uma fatigante epopéia, Geraldinho consentiu-me as chaves do imóvel que há seis anos comia-lhe as economias sem saciar-se por concluído. Morando com Rosilene e o pequeno Ítalo num emprego aos fundos do patrão, o cearense adaptado caipira desperdiça suas merecidas folgas de cuidar de chácara alheia servindo as tapiocas que herdou do Nordeste numa barraca à saída da igreja. Como inquilino da sua casa própria, dinamizei os acabamentos que ainda tardariam um bocado de salários no expediente dobrado do incansável faz-tudo.
Pela exemplar dedicação de Geraldinho à sua propriedade, favoreceu-se no quintal uma botânica pujante de florir. As rosas sangram de seus espinhos numa hemorragia de pétalas. O céu, por sua primavera, desabrocha nas hortênsias o azul de si. Com moldura de verde vivo, um córrego ambienta a tranqüilidade pelo seu murmúrio mole de descida ao vale. Inquieta entre galharias de araucária e paineira, a passarinhada bate-bico compondo seu delicado cancioneiro.
Logo de aterrizar neste formoso poleiro, meu entusiasmo se inconteve a temperar o chão com certas ervas culinárias. Pela mesma agricultura, promissoras leguminosas apresentam fortes tendências a se desesconder do fundo de seus berços. Noutro canteiro, as hortaliças já espreguiçam suas clorofilas deliciosamente ao sol. Tudo cresce como espelhos refletindo o plantador...
É que à imagem da modesta lavoura, também pretendo enraizar-me nesta fertilidade pelas próximas estações. Voltei da África com a experiência muito semeada de histórias frutíferas. Aqui e agora, cultivarei com disciplinado esmero o retiro para me lavrar a poesia. Assim estou: fecundo de um livro.
2 comentários:
Inspiração não te falta, querido amigo. Espero ansiosa pelo livro-filho! Abração!
celia, obrigado pelo carinho!
que bom te ver!
bjo!
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