14 Março 2011

Taiaçu

Dona Josefina desembrulha de um lenço branco a audição de seu irmão.

- Qual é o esquerdo e o direito?
- Tá escrito aí...

Entupido do aparelho para surdez, Seu Roque Videira faz com a palma da mão uma concha em volta da orelha motorizada. É para que eu ouça: o gesto acústico amplifica um chiado elétrico, como um rádio procurando frequência.

- Quando faz essa zoada é que tá funcionando direito.

Então diminuo o volume das minhas curiosidades. E sigo prosa com meu tio-avô.


O velho gastou a escuta em 70 anos bem musicais. Antes de emudecer, engasgado com a poeira acumulada sobre o armário, seu antigo trombone assobiou muito dobrado nos bailes da época. Já o acordeon de oito baixos, doado para um "crente pobre" resfolegar na missa, Seu Roque tocava "mais ou menos".

- Bom mesmo era meu irmão que morreu.

Entre seus contemporâneos, pouco menos que todos já fecharam definitivamente as partituras. Pela sucessão de marchas fúnebres, o experiente músico ficou quase um solista. Como uma relíquia viva, meu tio-avô é um dos últimos prevalecentes entre os fundadores da Folia de Santos Reis de Taiaçu.


Filho de um dos finados pioneiros, Josenil Dias oferece-me uma orgulhosa retrospectiva:

- No primeiro ano, meu pai ganhou um garrote. Este ano nós ganhamos 97. Pra você ver como a coisa evoluiu.

Hoje, a culminância da 27ª Festa chega de antes. Há dois meses, a tradicional companhia percorre os municípios da região pelo passo dos Três Reis do Oriente. Ao invés de incenso, mirra e ouro, a Folia presenteia os devotos com coloridas cantorias. E em retribuição pela visita às suas propriedades, os fazendeiros oferecem prendas gordas aos majestosos errantes.

No Centro de Rodeio de Taiaçu, a andança encontra descanso. A farta arrecadação agora alimenta os convidados: quase três mil galinhas deixaram de ciscar, ensopadas em pratos de isopor. Uma tonelada de leitoa em pedaços bronzeia-se pelo carvão de uma comprida churrasqueira. No banquete para a multidão, só as bebidas tem preço.


Poupadas da degola, umas tantas cabeças do rebanho coletado viram cobiça num disputado leilão. As aquisições fazem-se em média pelo dobro do valor do mercado. A inflação é cotada pela fé dos abastados. O locutor narra a vertiginosa escalada dos lances:

- 500, 520, 570... Quem dá mais? Dou-lhe uma; dou-lhe duas; dou-lhe... 600! Obrigado! Pra arredondar que a Festa tá sem troco!

Seu Pitangueira arrematou uma novilha. Edilberto da Fundição levou um bezerro. E todo dinheiro serviu de capim para engordar o caixa da tradição.

Enquanto os comensais palitam os dentes e os pecuaristas acertam suas contas, pipocos de fogo abrem o compasso da melodia:

- Boa noite, nobre gente, ai, ai / Os Três Reis Magos aqui 'chegou'!


Completando seu longo périplo anual, o cortejo cumpre seu trecho derradeiro até um altar onde Baltazar, Belchior e Gaspar guardam em vigília o lactente Cristinho. Um violino acompanha com estridências afinadas os versos improvisados dos violeiros. Num dos bambus arqueados sobre a trilha final, a trupe demora aguardando que o mestre cante a providência:

- Este arco está louvado / desde o alto até o chão / pode cortar as bandeirinhas / com a ponta do seu facão.

Então um dos foliões desembainha seu sabre de madeira e teatraliza uma lâmina. Rompido o barbante decorado, a passagem se liberta e a procissão segue. À dianteira, palhaços mascarados riscam o chão com coreografias de chula. Sob as fantasias, reconheço a pouca idade de meus primos de grau distante compondo um benfazejo contraste à faixa etária avançada predominante entre os foliões. Ao meu lado, Odair Cassiano, um dos gerentes da companhia, comenta sua preocupação:

- Em geral, os mais novos não tem interesse. Daqui a pouco, quando os velhos terminarem de morrer, a Folia vai acabar tudo mais ou menos ao mesmo tempo, em todos os municípios da região.


Empunhada por um ancião com as cataratas úmidas de comoção, a bandeira abençoada passa acariciando as mãos esticadas do corredor de devotos. Tendo o manto sagrado ao meu alcance, seguro uma fita azul pendida da haste. E aproveito para pedir uma graça aos Reis: pela posteridade desta beleza, que a juventude ouça melhor o que Seu Roque tem a dizer.

2 comentários:

Babi disse...

fazia tempo que nao passava por aqui... que relato lindo, Antonio. Vc sabe como transformar uma história simples em poesia...
beijo, saudade do meu irmão querido!
Babi

Antonio Lino disse...

irmã,
em breve juntos. saudade tb.
bjo!