A pré-história de São Francisco Xavier foi habitada por mamíferos gigantes. De verídica, a afirmação se vale com evidências: numa andança de trilhar caçadas na região, caipiras antigos toparam com um bando já muito abatido pelas épocas. Por melhor… pois que ao tamanho daquelas presas, faltaria-lhes calibre: nas ossadas descobertas pelos matutos, as mandíbulas destacavam-se monstruosas. Milênios é que desexistiram a tamanhuda espécie na extinção. Ao sopé daquele monte rochoso, tais fósseis inspiraram o apelido: "Queixo d'Antas", é como meus vizinhos apontam por informação o pico elevado à minha vista.
Em passado menos remoto, conta de uns trinta anos nos antecedentes da atualidade, um monomotor fez com a rota bem na parede de pedra que sombreia o sítio paleontológico. Seu João, dono das vacas que costumam transgredir pasto no meu jardim, revira de suas idades a lembrança do acidente: - Moço, foi um estrondo medonho! E até hoje, ainda tem ferro do avião deitado lá!
Vendo o cenário do trágico ocorrido como topografia cotidiana da minha paisagem, custei a inocentar o piloto pela imperícia diante de alvo tão proeminente. Mas o verão explicou-me uma atenuante: nestas redondezas, quando chega o tempo de nublar, todas as direções da bússola dão no branco. A cerração faz tapume no mundo. E o "Queixo d'Antas", mesmo que imponente, fica com pose de invisível atrás das tempestades.
Quando não era a estação das águas, Geraldinho vinha aparar os cabelos do chão de quando em mês. Mas agora que o mato cresce vertiginoso, desarrumando com maior frequência o penteado do quintal, o jardineiro me visita a cada pouco mais que semana. Para além da estética, as podas corriqueiras ao redor da casa convém à prudência: certa feita, rodando seus dentes laminados nos excessos do verde, a roçadeira motorizada mordeu uma cobra. Desfalcada do chocalho, a peçonhenta ainda logrou escapatória... É que pelas bordas do terreno, os ofídios cobiçam uma fartura cantante: nesta temporada, a chuva rege o coral da sapaiada.
Pelo seu próprio apetite, as armadeiras tecem emboscadas aos insetos. Cedo a impulsos de atentado nas mais peludas. Mas logo de concluir a impiedosa investida, fraquejo de arrependimento ao constatar as ameaças graúdas, agora de pernas encolhidas, em inofensiva desimportância. O chinelo desmede os adjetivos das aranhas.
Já comigo, é o inverso: pisoteado pelas palavras, cresço na vida. A poesia me maltrata para se acontecer. Ao meu jubiloso martírio de escriba, encontro inspirações na labuta incansável e disciplinada das formigas. Meu diferente das cortadeiras é que trabalho sozinho. E pela integridade das folhas: as folhas de um livro.
Nas breves pausas que me consinto de cigarra, esquento meus suores num tambor. E se uma estiagem me convida, caminho a pouca distância até o balneário que escorre nos hectares da Mari e do Nicola, meus generosos vizinhos. No verão, de tanto beber do céu, o córrego outrora tímido se acumula um obeso que desce o morro em cambalhotas desenfreadas. E assim me revigoro: sob o peso dos tapas gelados com que me acaricia a cachoeirinha.


1 comentários:
TRIGUEIRINHO?????????DESDE 1989 leio,estudo e pratico O TATÃO KI POSSO DE VC!!!!!PQ NÃO POSSO IR À FIGUEIRA,PRINCIPALMENTE AGORA COM AS ÚLTIMAS REVELAÇÕES DE Nossa Senhora?????????????PQ VC AINDA NÃO ESCOLHEU-ME?PQ AINDA TENHO 2 FILHOS E MEU MARIDO???????
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